M.D. Gotlib

Poucas vezes um artista cultivou laços tão estreitos com o Museu Nacional de Belas Artes. A instituição marcou sua estréia no Brasil, sediando duas das mais exposições individuais que M. D. Gotlib realizou no Rio de Janeiro.

Tipos e motivos poloneses, assíduos em sua obra, começaram a despertar um interesse inusitado, já no Salão Nacional de 1938. E tal como ocorrido com tantos outros imigrantes, Gotlib viu sua biografia ser finamente inserida no arcabouço cultural brasileiro.

Seus desenhos, definidos por Castro Filho – na época, presidente da Sociedade Brasileira de Belas Artes, em 1940 – como “vigorosos panfletos sociais”, retrataram com silenciosa denúncia a tensa e patética atmosfera que se abatia sobre a nação polonesa, violentada pelos “Progroms” e “Guernicas”.

Já a década de 40 marca a fase brasileira do artista, onde se fazem uma constante as árvores de sua terra de adoção e cores vibrantes, reveladas pelo sol do Rio de Janeiro. Embora não seja um pintor brasileiro, Gotlib deixou sua sensibilidade radicada nas paisagens cariocas e tipos europeus, transmigrados nos desenhos à ambiência tropical. Ele não se despiu de sua ancestralidade, mas nem assim deixou de se contagiar pela exuberância de tons inerentes à terra e à gente que o acolheu. Assim sendo, Gotlib pode ser considerado um polonês de veia – plástica e íntima – brasileira.

O fato de ter nascido em Lodz, Polônia, e depois emigrar ao Brasil, não obstruiu a autenticidade de sua produção. Foi um extraordinário artista enquanto na Europa, retratando com sensibilidade seus tipos e cores, e posteriormente aplicou com refinamento os tons alegres do cenário tropical ao migrar para o Rio de Janeiro.

Na dualidade dessa experiência talvez resida uma das razões pelas quais a transição inter continental de Gotlib se cumpriu bem sucedida, expondo desde 1938 em espaços culturais importantes de ambos os lados do Atlântico. A crítica sempre o acolheu com muito respeito, tal como os próprios brasileiros.

Hoje, o Espaço Cultural Gotlib continua essa história preservando os trabalhos desse grande artista, ainda desconhecido por muitos, mas amplamente respeitado pela comunidade artística. Trabalhamos dia após dia para honrar sua memória, pois ela é uma extensão de nossa trajetória.